sábado, 10 de julho de 2010

Num espaço de três minutos - III

Eram 16:13 de um domingo frio e não havia nuvens no céu. Ela usava um cachecol vermelho, que parecia ser a única coisa carregada de cor naquela tarde cinza. Havia a xícara de café, metade vazia; havia o esmalte negro, já metade roído; havia o cinzeiro com metade de um cigarro ainda queimando. Nada era completo. Nunca mais seria.

As pessoas passavam pra lá e pra cá ao lado da janela do café, andando sempre muito depressa. Ela inclinava a cabeça para trás, numa tentativa sabidamente tola de fazer as quase-lágrimas voltarem para dentro dos olhos. Não funcionava.

A outra se levantou de cabeça baixa, pensou em pousar a mão sobre a dela, mas achou melhor não. Se virou devagar e com um certo pesar na face, como quem sabia a dimensão da ferida que causava e pedia perdão com o olhar; se afastou, e - às 16:16 - deixou-a só, com o silêncio e a cadeira vazia a sua frente.


▪ Num espaço de três minutos - I
▪ Num espaço de três minutos - II


(E, sim, voltei. [...] Acho.)

6 comentários:

Márcio Viana disse...

Bem-vinda de volta! :)

Felipe Attie disse...

obrigado. volte sempre. beijos & até...

Fabrício Santiago disse...

Olá, desculpe invadir seu espaço assim sem avisar. Meu nome é Fabrício e cheguei até vc através do Blog do Mar Íntimo. Bom, tanta ousadia minha é para convidar vc pra seguir meu blog Narroterapia. Sabe como é, né? Quem escreve precisa de outro alguém do outro lado. Além disso, sinceramente gostei do seu comentário e do comentário de outras pessoas. Estou me aprimorando, e com os comentários sinceros posso me nortear melhor. Divulgar não é tb nenhuma heresia, haja vista que no meio literário isso faz diferença na distribuição de um livro. Muitos autores divulgam seu trabalho até na televisão. Escrever é possível, divulgar é preciso! (rs) Dei uma linda no seu texto, vou continuar passando por aqui...rs



Narroterapia:

Uma terapia pra quem gosta de escrever. Assim é a narroterapia. São narrativas de fatos e sentimentos. Palavras sem nome, tímidas, nunca saíram de dentro, sempre morreram na garganta. Palavras com almas de puta que pelo menos enrubescem como as prostitutas de Doistoéviski, certamente um alívio para o pensamento, o mais arisco dos animais.


Espero que vc aceite meu convite e siga meu blog, será um prazer ver seu rosto ali.


Abraços

http://narroterapia.blogspot.com/

Maldito disse...

Me pareceu os tres minutos mais longos que ja se viveu!

Ana Terra Severo disse...

"Ela inclinava a cabeça para trás, numa tentativa sabidamente tola de fazer as quase-lágrimas voltarem para dentro dos olhos"

Que coisa bonita isso.
Fico feliz que tenha oltado Anna, bem vinda de novo :)
Beijo

Isa disse...

Hey, não sabia que tinha um blog. Se bem que não parece lembrar muito dele, mas ainda assim comentarei. Gostei da idéia do texto se passando em três minutos, ao mesmo tempo que rápido, denso.